Mossoró/RN, 23 de Setembro de 2021

A polarização no Brasil

Na revista Piauí de novembro de 2018 (salvo me engano), li um excelente artigo sobre a polarização a que chegou a Polônia após a eleição da extrema direita populista naquele país. Estarrecido, mas com um nó no estômago, vi o que iria acontecer com o Brasil: amigos, familiares, convivas e até pessoas que antes se cruzavam com alguma fraternidade deixando de se falarem, virem e mesmo de expressarem o mínimo de cordialidade.

O Brasil – agora dos bolsominions e dos esquerdopatas (ambas as expressões cunhadas por cada um dos algozes) – tornou-se um espaço da desavença e discórdia onde não dá mais para trocar nem mesmo um pequeno comentário sobre (como antes fazíamos) qualquer assunto.

Ontem, ao sair de um espaço de mídia, fui interpelado por um sujeito que, assistindo seu jornal global televisivo, realizando seu honesto emprego de porteiro (aparentava ter seus 50 anos), destilou-me os bofes na defesa do governo que, na sabedoria de torcedor de futebol, acreditava ser seu. Sua agressividade chegou a um ponto em que tive que dizer olhando-lhe no rosto: quando o senhor estiver desempregado e sem realocação no mercado de trabalho, retomamos essa conversa.

Passei o resto do dia mal, sentindo-me tão ruim e asqueroso que ainda tenho em mim o asco da ação. O homem calou-se. Calei-me também eu diante da covardia de jogar-lhe na cara nossa inutilidade diante do mercado-deus e diante das novas tecnologias informacionais. Ele, com certeza entendendo o que eu queria dizer, se calou. Não havia diálogo antes, não houve depois. Talvez não haja nunca mais.

Ele não abriu a porta para minha saída. Expressou sua raiva na única coisa que poderia fazer: não cumprir seu papel profissional diante da situação vexatória. Eu abri ela mesma, prometendo a mim mesmo nunca mais discutir NADA no Brasil, sem antes perguntar a filiação ideológica, partidária e o escambau do interlocutor.

Viramos uma Polônia nesse aspecto polarizador? Não sei ainda. Mas que não dá mais para conversar em público, isso já percebi.

Não é a toa, que vivemos com os rostos socados em celulares. É o nosso único remédio ao fim da sociabilidade humana.

Postado em 22 de junho de 2019