Mossoró/RN, 23 de Outubro de 2021

Depressão e suicídio

As culturas tradicionais não lidam com o suicídio enquanto tabu. Algumas, como faziam os romanos ou os japoneses, até o tomavam-no como um ato de honra. Nossa sociedade judaico-cristã o trata como anátema e como pecado. O resultado é catastrófico: o que não se discute termina sendo varrido para debaixo do tapete. Isto posto, para parafrasear uma paráfrase já batida: nunca se suicidou tanto na história deste país. A depressão é a sua principal causa, segundo os principais estudos da área da saúde.

Depressão não é falta de Deus ou qualquer outra absurdidade (sic) dessa. Depressão é corriqueira, cotidiana e afeta ou afetará a todos nós. Não se engane. Posso estar rindo ou triste, isolado ou na multidão. Mas se estou com depressão, estou num fosso gravitacional tão denso quanto um buraco negro.

E dessa singularidade (me perdoem os amigos da física) não é fácil sair. Até porque, ninguém ou quase ninguém ajuda. As pessoas querem você “bem”. Mas em geral isso é mentira. Elas não querem é se sentir incomodadas com as exteriorizações da depressão. A agressividade ou a apatia, a tristeza ou a bipolaridade do humor, as várias manias e sintomas que acompanham o mal do século (junto com a ansiedade, sua companheira inseparável).

Você acha que tem milhões de amigos? Pois entre em depressão. Eles vão quase todos embora. Por isso, o depressivo em geral disfarça sua dor profunda e sorri. Ele finge “tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente” (Fernando Pessoa).

O depressivo é um ator formidável porque ele sabe que será abandonado de vez se for ele mesmo. Mas aí está a armadilha. Ele vai afundando em seu buraco até não ver mais saída. Até a dor ser tão insuportável que ele só vê a morte como saída.

Por isso, você, pessoa que se acha saudável nesta modernidade líquida (estou numa profunda ironia agora, tenha certeza), não dê as costas a alguém com depressão. Não peça para ele ou ela deixar de irritação ou se sentir melhor. Abrace, saia com ele ou ela, dê um pouco do seu tempo. Tome um chá ou um café. Dê um beijo ou um cafuné.

Pois, depois que ele ou ela pôr uma corda no pescoço, não adianta postar homenagens em redes sociais.

A vida é uma dádiva. Mas ela precisa e deve valer a pena. Ajude a valer a pena.

Postado em 14 de outubro de 2019