Mossoró/RN, 06 de Maio de 2021

Internacional da Mulher: o que há para comemorar?

Neste 8 de março de 2020 vivenciaremos mais um Dia Internacional da Mulher. Dia de luta e desafios. Dia de memória e reflexão. Infelizmente, como somente a ideologia é capaz de fazer, o dia é mascarado como uma espécie de “dia das mães” ampliado, ressignificado como mais uma data de festa, almoços, presentes e algum romance. Mas não se trata disso.
O dia é uma memória às mulheres na modernidade que alçaram seu papel de trabalhadoras e batalhadoras no espaço público, realizando uma jornada dupla e tripla, alongando aquilo que há milênios já realizavam em suas moradias. A labuta mais impiedosa e dura sempre coube à mulher: cuidar da prole, alimentá-la e educá-la. Minhas avós e bisavós e até onde a memória familiar me chegam trabalhavam muito. Foram secretárias, parteiras, costureiras e tantas outras coisas, complementando a renda da família e sendo, muitas vezes, o arrimo destas.
Não há maior luta que a feminina ao ter o direito supremo de existir enquanto condição própria e o direito de, ao menos, ser explorada, tratada e dignificada como um homem. Igualitariamente em suas diferenças. As religiões, todas executadas e construídas por homens – ao menos as monoteístas – são radicalmente misóginas, embora seus fundadores parecem não ter sido tanto quanto seus discípulos (Jesus é o melhor exemplo de acolhimento e dignificação feminina que me vem à mente, ressalvando as condições históricas em que vivia). Ser mulher é realmente padecer o infortúnio de não conseguir ser reconhecida de pronto e, sempre, ainda ter que reproduzir os discursos e as práticas sociais e culturais que a mantêm na condição de subalternidade.
Parece discurso de feminista? E é. Não possuo o “lugar de fala” para tanto, mas falo como alguém que estuda violência há mais de 14 anos, que já tem alguma coisa acumulada sobre o tema e que aprendeu, com todas as mulheres que me cercaram e me cercam, a ser menos machista. A luta é delas e é minha. Deveria ser sua também.

Mulheres sofrem mais violência física, moral, sexual e simbólica que homens. E somos nós os perpetradores. Dados dos femicídios e feminicídios apontam que elas são de 4 a 6% das vítimas fatais das Condutas Violentas Letais Intencionais, mas o que os dados não mostram de pronto é o mais importante: a violência contra a mulher é silenciosa, mascarada e escondida na universal e absoluta subnotificação dos crimes. Quando não, é acobertada pela vergonha, pela acomodação ou pela abdução da vítima ao agressor. Sem pesquisas amplas de vitimização (que tanto cobro de TODOS os governos e NENHUM deles realizam), jamais saberemos exatamente como poder elaborar as políticas públicas corretas, que medidas tomar e que áreas e classes da população abordar.
Diante de um quadro político de profunda misoginia, onde os donos do poder falam abertamente na objetalização e sexualização monetária das mulheres, onde se defende a submissão feminina, onde todas as políticas públicas que já eram insuficientes e precárias (e sempre criticadas por isso por esse escriba), agora são praticamente inexistentes, o que fazer? Continuar nosso trabalho de educação, diálogo e combate. Que as luzes do saber esclareçam a população e que as novas gerações venham aprender o respeito. Sei o quanto damos passos para trás, mas às vezes, para citar um velho combatente, é preciso “dar um passo à frente e dois para trás”.
A todas as mulheres, minhas palavras e meu libelo. Hoje não trago flores, mas ergo com vocês o martelo.

Postado em 8 de março de 2020