Mossoró/RN, 19 de Abril de 2021

Ode à mentira

A mentira é o grande pendão do covarde, elege presidentes, absolve culpados, torna forte o fraco, rico o pobre, santo o herege e inteligente o burro.

Está cada vez mais evidente que é mais forte quem sabe mentir. Ela nos ilude, nos persegue, nos corrompe, conforta os amantes e é capaz de retardar o sofrimento dos enfermos.

Os traidores de alcova buscam nela o discurso para a redenção, ao passo que os traídos a ela se aliam para manter viva a docilidade da ilusão. Os moralistas de ocasião reverberam odiá-la como o diabo foge da cruz, mas são os primeiros a nela se fiarem quando em apuros.

A mentira se reinventa e é flagrantemente estampada em fotos filtradas de redes sociais, em pregações de líderes religiosos, em live de políticos e atualmente é conhecida como pós-verdade que, aliás, foi escolhida como verbete do ano de 2016 pelo Dicionário Oxford. Ela foge da luz do sol, das bibliotecas, do debate, do confronto, da crítica, da investigação, da ciência e tem atualmente nas redes sociais sua grande plataforma de propagação.

Quanto melhor e maior for o mentiroso, mais seguidor ele consegue obter. A mentira tolera e estimula a violência e o grito, mas jamais convive com a serenidade da reflexão. Vive do monólogo de quem a edita porque o contraditório e o agir comunicativo, que se refere HABERMAS, lhe é refratário. O inculto e o aluno do fundão adoram a mentira porque a verdade lhes é profundamente desfavorável. É idealizada pelo e para os preguiçosos, porque a verdade depende do esforço intelectual, da reflexão, da crítica e do tempo, instrumentos profundamente rejeitados pelo indolente.

No mundo político a mentira se alia à desfaçatez e é capaz de guiar um país rumo a um mundo mitológico cujo líder tem nelas seus grandes trunfos. Os malfeitos são encobertos, as conquistas criadas e divulgadas com auxílio eficiente da maquiagem do marketing. Hitler e Mussolini, por exemplo, resultaram de uma grande mentira compactuada pela elite europeia do século passado a revelar que sua propagação somente se estabeleceu graças à omissão de quem poderia e deveria agir. A mentira, portanto, é produto da desídia dos bons que se calam solenemente.

Assim como na economia a dimensão da oferta depende da demanda, a mentira somente existe porque cada vez mais há iludidos ávidos por serem enganados. Em adendo à advertência de Nitetzche segundo o qual “cada pessoa tem que escolher quanta verdade consegue suportar”, cumpre ressaltar que o destinatário da mentira não é necessariamente sua vítima, mas muitas vezes seu impecável cúmplice que busca na ilusão razão para manter suas crenças superficiais e inevitavelmente preconceituosas. Aliás, o preconceito é o filho da mentira e dela se alimenta para poder justificar o tratamento diverso dispensando às pessoas segundo a cor, a origem, o sexo ou a raça.

Se o que se busca é a verdade e se está disposto sinceramente a com ela conviver, desconfie do grito, pois a voz se eleva no exato momento em que a razão dissipa, não acredite em quem despreza a ciência e a universidade, pois lá é ambiente em que a verdade é a meta primeira e, por fim, e não menos importante, jamais acredite em quem acha a filosofia desnecessária, pois essa espécie de conhecimento tem a crítica como método e a reflexão como fim.

Apesar de toda a imponência da mentira, sua principal fraqueza, que é o tempo, o acompanha implacável, impiedosamente e tem na verdade, seu grande algoz, um eficaz aliado. A mentira é tão intensa como a paixão e tão efêmera quanto, mas é muito mais impaciente e não suporta o tempo e o tédio. Como fênix, a verdade ressurge sempre que os homens e mulheres de coragem se propõem a encurralar a mentira que, de covarde, invariavelmente entra para o panteão da história ao lado dos malfeitores da humanidade e daqueles que se mantiveram inertes diante deles. Enfim, a mentira cobra o preço de quem dela se vale, do tamanho bem superior ao benefício com ela obtido e no tempo bem inferior do que se imaginara.

Postado em 3 de fevereiro de 2021