Mossoró/RN, 07 de Maio de 2021

O Brasil precisa de Noel

Em sua despedida na Vila Isabel, acorreram todos. Eram bêbados, mendigos, poetas de botequim, sambistas do morro, vizinhos e parentes, astros e estrelas do rádio, jornalistas e tantos mais. No chalé simples foi velado, com seu terno branco, cheio de cravos, rosas e saudades.

Noel morreu como quis, pois preferiu morrer a não viver em sua plenitude. Mas sua morte falou tanto quanto sua breve vida. Seu cortejo fúnebre percorreu a Vila Isabel a pé, sendo levado pelos amigos, honra última de quem cultivou tantos. Até o cemitério do Caju, as portas dos botequins, lojas e casas se fecharam em sua honra.

Morreu de tuberculose que não ousou tratar. Sabia que viveria mais, mas não viveria sem o sereno das madrugadas, sem as serenatas, sem a sua cerveja Cascatinha, sem sua música e suas noitadas. Por isso, Noel de Medeiros Rosa, morrendo aos 26 anos de idade, menino ainda, morreu homem como escolheu viver.

Porque Noel é tão importante, me pergunta você que acha que nunca ouviu falar dele? Porque uma de suas músicas já passou por sua vida, tenha certeza. Porque a música popular brasileira não teria sido a mesma sem ele. O morro não desceu ao asfalto. Não. O asfalto com Noel subiu o morro e de lá, desceu para se transformar no samba que conhecemos.

Foi de Cartola, sim, do imortal Cartola, negro e do morro da Mangueira que veio a primeira e linda homenagem ao seu amigo. Amigo porque até quase morrer era na Mangueira, nos barracos de barro, taipa, madeira e papelão, de teto de zinco, que ambos compuseram, beberam e selaram uma das mais belas amizades da história da cultura brasileira.

Conheci Noel aos 16 anos de vida, quando numa palestra ouvi falar de sua trajetória. Foi amor a primeira vista a uma personalidade que, de tão diferente da minha, me identifiquei tanto. Eu que já vivi 16 anos a mais que Noel posso dizer: sua benção Seu Noel! Que seu samba seja sempre aquele que leve o asfalto ao morro. Que religue o Brasil tão dividido.

Que numa era de grotescas abominações e preconceitos, você que amava o morro e a noite, que teve como amigos do peito as criaturas mais marginalizadas naquela longínqua década de 1930, nos ensine a respeitar a todos e a todas.

Que o Brasil aprenda, como eu estou agora, com Noel Rosa a ser de fato um Brasil para cada um de nós.

Sua benção Seu Noel!

Postado em 4 de junho de 2019