Mossoró/RN, 26 de Setembro de 2021

Uberização e desalento

Ontem, após adentrar num UBER, conheci a sua motorista. Mulher jovem, batalhadora, gentil e sorridente. Mas as rugas de preocupação já estavam estampadas em seu rosto e, como sempre faço, puxei conversa. Ela me contou que trabalhava de 10 a 12 horas por dia, dirigindo seu carro pelas ruas de Natal. A média de valor apurado, ao fim da jornada era de pouco mais de 200 reais. Acha muito? Ela ainda tem que pagar o combustível, o carro e sua manutenção (que envolve seguro, impostos e o mais que imaginar). Acha confortável? Experimente dirigir por longas horas, lidando com esse material maravilhoso que é ser humano.

A uberização do trabalho é um fenômeno consolidado e que transforma a precarização em lenitivo. Não se trabalha para ninguém, mas se pode perder o trabalho rapidamente. Não há vínculo algum, além de uma rede que pode te excluir, que te impõe metas e resultados, que te paga pouco (podem ficar com até 40% do que você apura) e ainda te submete a situações fortemente estressantes.

Mais simpáticos, profissionais e atenciosos que motoristas de táxis tradicionais, os batalhadores do UBER são motivo de satisfação mundial. Mas, sempre temos que olhar o outro lado (nesse caso, ao lado da gente).
Quantos anos um indivíduo aguenta a vida de UBER sem sair com doenças debilitantes ou morto? Se achávamos que o telemarketing era o fim do túnel da precarização, o UBER veio para tomar o primeiro lugar.

A flexibilização absoluta e o trabalho em rede, apoiados pela massa de desemprego e de desalento, além da falta de mobilidade e de serviços mais em conta e de qualidade, gestaram o UBER. O problema são seus efeitos, praticamente tão perniciosos quanto os descritos pelos analistas do trabalho das fábricas do século passado. Friedrich Engels, ao descrever a situação do operariado inglês nas fábricas daquele final do século XIX iria se surpreender com a capacidade do capitalismo em se superar na exploração. Agora ela é “clean”, limpinha, asséptica, silenciosa e sorridente. Mas é geradora do mesmo desalento, adoecimento e insegurança de antes.

Não temos mais as caras sujas de fuligem do passado, mas a depressão e ansiedade, assim como o aumento das taxas de suicídios nos falam que algumas coisas mudaram apenas para permanecerem as mesmas.

Postado em 13 de julho de 2019